Depois de um longo interregno motivado por questões de saúde, eis-me de regresso à blogosfera. E para regressar em grande, nada melhor que um fescenino plágio. Exacto.
Da autoria de António Marques, publicada no utilíssimo (e imprescindível!) “TENTO NA LÍNGUA!… 2″ da “Plátano Editora”, eis a explicação para algumas dúvidas que nos vão assaltando.
Com a devida vénia:
«Não me levem a mal, mas não fujo à tentação de abordar o tema das cacofonias. Tem muito interesse, não só linguístico como também psico e sociolinguístico.
Desde logo, para sabermos que cacofonias e palavras obscenas, na sua maior parte, como parece, provêm de palavras latinas ou gregas que, por lá, nem todas teriam, pelo menos inicialmente, esse sentido; foram-no tomando num processo de evolução semântica. Mesmo essa que a toda a hora se ouve por aí, dita desbragadamente por tantas pessoas e que os espanhóis e gentes do Norte dizem simplesmente nas suas divergentes: carajo ( de que o dicionário espanhol diz apenas que “es voz malsonante“) ou carago (que o cronista desportivo “nortenho” José Estebes tanto usa nas suas crónicas). Dessas três formas divergentes do mesmo étimo – caraculu(m) (= pequeno pau) nem todas têm a mesma carga semântica, maliciosa ou mesmo obscena, sendo a tal forma nortenha a mais inocente.
Do ponto de vista sociopsicolinguístico convém lembrar que as palavras carregadas de maior sentido obsceno têm geralmente a ver com as chamadas partes pudibundas – sexo ou ânus – ou, melhor ainda, com as respectivas funções fisiológicas. Haja em vista a tal sugerida no segundo parágrafo e a correspondente feminina que, também ela, provém de étimo muito inocente, tão inocente que até significava berço em que se embalavam os bebés romanos: cuna-ae (= berço, ninho de ave), mais usado no plural com o mesmo significado.
Quanto ao elemento caco de origem grega [do adjectivo kakos que significa: feio, sujo, disforme, defeituoso], o Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de J. Pedro Machado, Círculo de Leitores, regista mais de cem vocábulos, na sua maioria de cariz erudito, em que este elemento empresta sempre ao vocábulo a ideia de fealdade ou maldade, vício ou defeito, físico ou moral. Dele deriva o verbo latino caccare que significa isso mesmo que o leitor está a pensar e que nem o Torrinha foi capaz de escrever no seu dicionário, onde apenas indica o erudito defecar.
(…)
E, já agora, para provar a afirmação inicial de que a maldade ou mesmo a obscenidade de palavras foi sendo dada pela malícia dos falantes, individual ou colectiva, no processo evolutivo fonético e semântico, às vezes a palavras muito honestas, muito dignas e até envolvidas duma certa sacralidade, não fujo a referir o que segue.
Há um domingo, não me lembro agora qual, em que o texto do evangelho era a parábola do administrador. A certa altura, o mau administrador diz: “Quid faciam? Fodere non possum, mendicare enrubesco.” O que, em linguagem, significa: “O que hei-de fazer agora? Cavar, não posso; mendigar, tenho vergonha.” Podemos imaginar o cuidado do leitor – padre ou diácono- procurando, na recitação ou no canto, engrolar a passagem do texto latino, onde vem o que bem popderia ser o étimo, muito legítimo, muito digno, de um verbo português pertencente a um grupo a um grupo léxico altamente obsceno, de modo a não suscitar a malícia dos fiéis em local e função tão sagrada…
Só mais um parágrafo sobre palavras feias (caco-). Com “repressão” social, escolar e religiosa que ajudam a moldar os comportamentos e linguagens, a tendência dos falantes atingidos tem sido para contornar as palavras obscenas ou simplesmente feias, mediante a criação de novas palavras que as substituam decentemente. Dizer méscara não não era pecado nem má-criação, assim como dianho, diacho, dialho (diabo nem pensar), pôssa ou pôssara e, mais recentemente, fogo. Carvalho, já nem tanto, sugeria de mais pela rima. As crianças – e não só – se usassem as substituídas tinham (não sei se ainda têm…) de confessar-se disso, de dizer palavras feias…»
«CACOFONIAS E OUTROS CACOS»
Agosto 6, 2007 às 8:49 pm (Uncategorized)