ABORTO: NIM, OU SÃO?

O CIDADÃO E A POLÍCIA

Dia 13 de Dezembro de 2006. Em pleno séc. XXI, portanto.

O cidadão conduz o seu veículo pela Avenida dos Aliados, no Porto. Subitamente, nota que a embraiagem deixou de responder. Insiste, insiste, e nada. Remédio imediato: encostar à berma e chamar o mecânico. Sai do carro, veste o colete regulamentar (trata-se de um cidadão cumpridor…) e empunha o telemóvel.
Não teve tempo para telefonar. Atrás do seu carro, estaciona um carro-patrulha da PSP. Do interior sai um agente fardado:
- Então, que temos?
- Julgo que foi o cabo da embraiagem – dilucidou o cidadão. – Ou partiu, ou se soltou.
O Agente avaliou rapidamente a situação:
- Abra o “capot”, se faz favor.
O cidadão, cumpridor, obedeceu ao cívico; este, uma vez feita a sua vontade, mergulhou, literalmente, em tudo o que era cablagens, tubos, engrenagens, fios eléctricos, enfim, toda aquela parafernália que, normalmente, se encontra sob a tampa do motor. Emergiu pouco depois e, para espanto do cidadão, proferiu:
- Está resolvido. Mas é só para desenrascar. Tem de ir à oficina.
- Pois – diz o cidadão. – Eu ia já telefonar…
O polícia não deu tempo a terminar:
- Quer que o leve?
O cidadão começava a deixar transbordar o espanto. “Isto não está a acontecer comigo!!!”. No entanto, ainda teve a lucidez suficiente para discernir que, com um carro-patrulha a abrir caminho, chegaria mais rapidamente à oficina. Pelo que decidiu aceitar a oferta:
- Se faz favor…
Pelos vistos, porém, ainda era cedo para o cidadão fechar a torneira do espanto. Adianta o guardião da lei e da ordem:
- Diga onde é a oficina e dê-me a chave do carro.
E aqui temos o cidadão a olhar, especado, para o seu rico carrinho, magistralmente conduzido por um Agente da PSP, a caminho da oficina mecânica, acompanhado por um carro-patrulha!!! Tão especado ficou, que nem reparou que as chaves do escritório tinham ido juntamente com a chave do carro. Telefonou à mulher:
- Querida, por favor vai à oficina, que o meu carro já lá deve estar. Tiras as chaves do escritório e traz-mas. Mete-te no teu carro…
Mas não foi preciso. Quando a esposa chega à oficina, está a chegar o carro do marido – do cidadão sub judice, entenda-se – conduzido por um garboso Agente da Autoridade. Ainda ouviu o cívico dizer ao mecânico qualquer coisa como “está aqui este carro, é para reparar o cabo da embraiagem, mas aquilo é só mesmo apertar a braçadeira, de resto está tudo em ordem” o que poderia ser traduzido literalmente porvê-lá-no-que-é-que-te-metes-olha-que-eu-percebo
-disto-e-não-te-atrevas-a-

inventar-avarias-onde-elas-não-existem
“.
A esposa do cidadão apresentou-se ao polícia, e disse ao que ia. O guardião retirou e estendeu-lhe as chaves do escritório do marido. Marido que só conseguiu mesmo fechar a boca de espanto quando viu a esposa a sair de um carro-patrulha, para lhe entregar as chaves…

“CADÁVER EM SALMOURA”

Há 180 anos…

um homicídio no Porto


 

Há dias, vasculhando velhos alfarrábios na Biblioteca Pública, deparei com um titulo que me chamou a atenção: «O Homem Salgado». Debrucei-me sobre ele: descrevia um crime descoberto em 1825, na cidade do Porto, e as subsequentes investigações para determinar a sua autoria.

Estava escrito numa grafia antiga, em estilo curioso, o que me levou a transcrever parte do artigo. Vejamos, pois, este delicioso pedaço de prosa:

«Na viella do Cysne (que vae da Cancetla Velha ter ao cimo da Rua do Laranjal, à esquina do Palácio Ferreírinha, no largo da Trindade) appareceu, no dia 13 de Março de 1825, um grande barril, fechado, exhalando muito mau cheiro. Duas meretrizes, das que já então costumavam habitar n’aquela viella, foram as primeiras que na manhã desse dia viram o tal barril, e foram dar parte ao cabo de policia mais próximo, o qual veio com ellas, e, destapando o barril, n’elle acharam um homem, vestido, morto, e mettido em sal, com signaes evidentes de morte violenta».

Era uma manhã de sol, como que a anunciar a Primavera que se ia aproximando. As primeiras pessoas começavam a passar, ainda sonolentas, fazendo a cidade do século passado despertar lentamente.

Na viela do Cisne, um cabo da policia olhava, sem perceber, o macabro conteúdo do barril. As duas meretrizes, horrorizadas, com os lenços tapando o nariz, não conseguiam desviar os olhos daquilo que, em vida, tinha sido um dos homens mais ricos da cidade do Porto: no entanto, naquele momento ainda o cadáver era de um desconhecido.

As autoridades foram avisadas. Pouco depois, comparecia no local um «juiz de crime que procedeu ao auto de corpo de delicto».

Tirou-se o cadáver do barril; estava vestido, envolto em sal, e em adiantado estado de putrefacção, de tal forma que estava irreconhecível. Entre o tampo do barril e a cabeça do cadáver havia uns trapos e, no meio destas, uma bolsa própria para dinheiro, «com capacidade para 200 moedas de prata e com a firme S & F».

No exame que se faz ao cadáver foram encontrados: uma caixa de rapé, uma argola com chaves e um lenço de assoar.

O estado de putrefacção em que se encontrava indicava que a morte devia ter ocorrido muito tempo atrás. Como se disse, o corpo estava completamente irreconhecível, e esse facto era agravado pela ausência de outros elementos ou documentos de Identificação; a única pista então existente, era a saca para moedas, com as iniciais S & F. Não obstante, as investigações prosseguiram.

Como é fácil de calcular, a cidade do Porto apresentava, no primeiro quartel do século vinte, características completamente diferentes das que hoie nos são dadas a observar. O velho burgo tripeiro era muito menor, e as suas ruas tortuosas. Algumas delas ainda chegaram aos nossos dias; basta darmos um passeio pelas ruas da Sé, percorrermos a freguesia da Vitória — onde o hábito de passar todos os dias nos leva a alhear-mo-nos do seu tipicismo — ou, se descermos até aos becos da Ribeira, poderemos fazer uma Ideia do que era a cidade do Porto em 1825. A sua população era em muito menor quantidade, e quase se poderia dizer que «toda a gente se conhecia». Daí que não tenha sido muito difícil concluir que o barril «apparecera em um armazém, da próxima rua do Laranjal, junto à fonte… propriedade (o armazém) de João António Gomes de Castro, morador na praça das Freiras de S. Bento, e que trazia de renda Agostinho Luiz Ignácio».

Este armazém, anteriormente e durante vários anos, eslava arrendado a um rico negociante do Porto, José António de Araújo e Silva, que ali tinha instalado um depósito de vinhos e aguardentes. Em 1824, o José Silva desocupou-o, passando o armazém a ser ocupado pelo Agostinho Inácio.

Quando tomou conta do armazém, o Agostinho já lá encontrou o barril; e a explicação que então foi dada pelo Silva foi a de que ele pertencia a um seu ex-empregado que, acusado de furto, tinha sido degredado, «— Assim continuou o Silva — como o meu ex–empregado foi degredado por dez anos, e como o barril já aí se encontra há bastante tempo, é melhor deitá-Io fora». E porquê? Porque, ainda segundo o Silva, o barril continha presuntos que, certamente, já estariam estragados.

Mas o Agostinho, certamente na esperança de que alguns dos presuntos ainda se pudessem aproveitar,decidiu-se a abrir o barri]; e se bem o pensou melhor o fez. Mas logo que, â primeira pancada, o tampo cedeu, logo se desenvolveu o fedor de tal modo pestilento que o Agostinho teve de fugir.

Em face do sucedido, o Agostinho logo mandou recado ao Silva, que se prontificou, imediatamente, a mandar retirar o barril. E â noite, um caixeiro do Silva, acompanhado por um outro Indivíduo a quem o caixeiro disse que o barril continha carne podre — e não estava a enganá-lo — retirou-o do armazém e foi colocá-lo… na «viella do Cysne».

As averiguações prosseguiam, com os cabos de policia fazendo sucessivas interrogatórios tentando, agora, identificar o cadáver. Tal como ainda hoje acontece, os investigadores começaram a defrontar-se com as mais diversas Informações de pessoas que ora garantiam que o corpo era de um sobrinho do Silva, ora afirmavam, com toda a certeza, que o cadáver era de um negociante pernambucano com quem o Silva se relacionara… Mas a hipótese que corria com mais Insistência e, digamos, com mais foro de veracidade, era a de que o morto era (tinha sido!) um cambista da cidade do Porto, a quem o Silva devia em segredo (?) e sem que dessa divida houvesse qualquer documento, elevada quantia em dinheiro. O cambista — José de Freitas Guimarães — tinha sido dado como desaparecido em 9 de Julho de 1822… e testemunhas afirmaram tê-lo visto entrar, no dia do desaparecimento, na residência do Silva. Além disso, outros pormenores ajudavam a sustentar esta hipótese: a roupa, a marca da saca para moedas (S & F — Salgado & Freitas)… e o facto de o Silva se ter ausentado para parte incerta logo que houve conhecimento do aparecimento do cadáver.

José de Freitas Guimarães era, como se disse, cambista. Tinha sociedade formada com Manuel Vaz Salgado (afinal, «salgado» foi o Freitas) que, naturalmente, foi chamado a depor.

Do seu depoimento consta que teria afirmado o seguinte: Seu sócio saíra de casa em 9 de Julho de 1822, com uma saca contendo dinheiro, e nunca mais fora visto.

No entanto, ou a troco de dinheiro ou porque não quisesse dar contas do espólio aos herdeiros do seu sócio — desaparecido não significa, necessariamente, morto — o Salgado acabou por afirmar ter recebido cartas de pessoas radicadas no Brasil, cartas em que se afirmava ter o Guimarães sido visto em Rio Grande do Sul. Mas a patifaria do Salgado vai mais longe: faz juntar aos autos cartas que «atestam» as suas palavras. Só que as «cartas do Brasil» (fls. 101 e 102 dos autos) nunca foram reconhecidas, isto é, nunca se soube quem as escreveu.

Fácil nos é, pois, concluir que a corrupção pelo dinheiro e os «golpes baixos» não são invenção recente. Aliás, a tramitação que se processou nos «bastidores da justiça» è disso prova, como adiante se verá.

Com efeito, o Silva, logo que o cadáver foi encontrado fugiu para Lisboa, onde se manteve escondido.

Mas não ficou quieto: largas somas de dinheiro começaram a ser, por ele, movimentadas, no sentido de comprar testemunhas que, indo ao processo devidamente instruídas, fizeram a justiça desviar-se e escolher como principal alvo da acusação… o ex-empregado que, degredado, não tinha, obviamente, hipóteses de se defender.

Desta feita, embora tendo cometido um crime a que, na altura, correspondia a punição com a pena capital, o Silva acaba por ser condenado como cúmplice, tendo sido sentenciado «a dez annos de degredo para Moçambique, 6000$000 reis para despezas da relação e custas»; mas, no «desempate» (cúmulo jurídico) ficou a «condemnação reduzida a 5 annos de degredo para Angola, um conto de reis para os familiares do morto, e 6000$000 reis para despezas da relação e custas». Foi preso, aguardando transporte para o degredo.

O Silva, porém, é que não se conformava; por outro lado, embora o Tribunal fosse — como ainda é — um órgão independente do aparelho de Estado, a verdade é que naquela época se adaptava às diversas «nuance»* políticas.

Vejamos:

O Silva, mesmo preso não parou de «negociar»; continuando a movimentar avultadas somas, conseguiu a liberdade sob caução. Pretendia, desta forma, embargar a sentença condenatórla. Mas a fiança acabou por ser anulada, e o réu foí novamente preso em 11 de Novembro de 1825, à ordem do barão de Rendufe, Intendente geral da Polícia. «Logo a 16, marchou para’a relação do Porto, acompanhado por um escrivão e uma escolta de cavallaria da guarda real da polícia de Lisboa, tudo è custa do réu».

Mas a política muda: D. João VI falece a 10 de Março de 1826; o barão de Rendufe é demitido; D. Isabel Maria assume a regência do reino… e os protectores do réu logram obter um novo «alvará de fiança».

Em 1834, após o termo da guerra civil, regressa; faz nova tentativa para anulação da sentença, apresentando-se perante o Tribunal como «uma víctima do liberalismo» e chamando a D. Miguel «monstro e usurpador».

E a verdade é que, não obstante as sentenças terem sido pronunciadas numa época em que D. Miguel se encontrava em Viena de Áustria, logo, sem qualquer interferência nos destinos de Portugal, a verdade, dizia, é que o Silva acaba por vencer! E os juizes lavram, para os autos, o seguinte «accordam»:

«(…).Portanto e o mais dos autos, annullam, na conformidade do § 4º do artigo 4º, do decreto de 19 de maio de 1832, todo o processado, e mandam que, pela forma em que está (porque é impossível fazer agora outro exacto) se instaure de novo o feito, para o que se remetterão os presentes autos, ao juiz de direito do districto de Cedofeita, na cidade do Porto. Lisboa, 22 de dezembro de 1835 — Visconde de Laborim —: Aguiar — Paiva Pereira-—fui presente, Felgueiras».

É evidente que o processo nunca mais foi instaurado; e o Silva acabou por morrer descansadamente, na sua cama…

«Assim terminou a história do homem salgado, que tanto e por tanto tempo deu que fallar no Porto, e tornou célebre a torta, insignificante e Immunda viella do Cysne».

MOMENTO DE EXALTAÇÃO DIVINA

Mão amiga fez-me chegar o manual, que transcrevo – sem comentários, para que não digam que este blogue é anti-religioso.

CARTILHA CONTRA A LIBERTINAGEM SEXUAL

Retirada do livro “Castigo Divino” Igreja Universal do Reino de Deus
(Edir Macedo).

Veja os comentários sobre o pecado das seguintes posições sexuais:

Posição de quatro – É uma das posições mais humilhantes para a mulher, pois
ela fica prostrada como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a penetra.
Animais são seres que não possuem espírito, então o homem que faz o
cachorrinho com sua parceira, fica com sua alma amaldiçoada e fétida.

Sexo Oral – O prazer de levar um órgão sexual a boca é condenado pelas leis
divinas. A boca foi feita para falar e ingerir alimentos e a língua para
apreciar os sabores. A mulher engolindo o sêmen não
vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores musculares na língua ao
sugar a vagina de sua parceira.

Sexo Anal (Sodomia) – O ânus é sujo, fétido e possui em suas paredes milhões
de bactérias. É o esgoto propriamente dito. No esgoto só existe ratos,
baratas e mendigos. A pessoa que sodomisa ou é sodomisada ela se iguala a um
rato pestilento. Seu espírito permanece imundo e amaldiçoado. Mas o pior é
quando o ato é homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura já está
carimbado nos confins do inferno.

Vejam a maneira certa de se relacionar sexualmente com sua parceira, segundo
a cartilha:

Posição Recomendada – O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro
de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso.
Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido do
seu parceiro para iniciar a penetração. O homem após penetrar a
mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, deve manter uma
distância pois a fêmea deve estar rezando aos santos para que seu óvulo
esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois
do ato sexual, os dois devem rezar, pedindo perdão pelo prazer proibido do
orgasmo.

Como penitência, o açoite com vara de bambu é aceito como forma de
purificação.

Conclusão: ou nos veremos todos no inferno, ou vai faltar bambu no mundo.

BENTO XVI REZA

Escandalosamente roubado ao Carlos Esperança, na esperança de alcançar (ainda) mais leitores, aqui vai um texto implacável.

Papa reza para que 2007 seja um ano de paz. O Papa reza, a vaca muge, o corvo crocita, a rola geme e o papagaio palra. Cada animal tem a voz que o identifica.

Todos os anos o Papa reza debalde pela paz, este Papa, os precedentes e os que vierem. Se faltassem provas de que Deus não existe ou, no mínimo, é insensível à dor, bastariam os apelos lancinantes do Papa para provar a indiferença divina e a irrelevância papal.

Não há orações que salvem da fome as crianças que morrem de inanição, preceitos canónicos que encravem as armas, missas que demovam a humanidade da orgia de sangue que grassa nos países mais pobres e devotos.

Enquanto no Vaticano o Papa pede ao Deus dele que haja paz, através da televisão para que os fiéis o vejam, o ditador vitalício não se dá conta de que os homens, cansados de Deus, acabarão por virar-se para si próprios.

Os homens, de mãos postas, não trabalham a terra, de joelhos não constroem fábricas e a rezar não resolvem problemas, enganam-se a si próprios. Os que disparam as armas e dizem que «Deus é grande» construiriam fábricas, se o clero que fanatiza as crianças e instila o ódio estivesse interessado em melhorar o mundo e a prescindir do poder.

Se o Papa, em vez de rezar, trabalhasse, deixasse de dizer que é o representante de Deus como nos manicómios os doentes dizem ser Napoleão, não teríamos um exército de parasitas e ociosos a divertirem-se com a missa, o terço, o lausperene, a procissão, o Te Deum, o Ano Santo, a indulgência plena e a novena de acção de graças, teríamos gente para trabalhar em prol da paz e da prosperidade.

O clero está para a paz e o progresso como as religiões para a democracia e a liberdade.

PERGUNTAR NÃO OFENDE…

Há perguntas cujas respostas gostaria de conhecer…

(ainda) A PRISÃO DO SARGENTO

Transcrevo, com a vénia devida a mim próprio, um comentário meu, plasmado num “post” acerca deste assunto:

Por muito que nos custe aceitar:
1) – O sargento NÃO É pai adoptivo da criança;
2) – o pai biológico, confirmada que foi a paternidade, tem todo o direito a exigir a posse da criança;
3) – o tribunal, em 2003 ou 2004, determinou que a criança fosse entregue ao pai biológico; o sargento não só desobedeceu a uma ordem legal e legítima, como ocultou a criança em lugar incerto;
4) – por esta última razão, e só por isso, foi condenado;
5) – o povo não pode condicionar os tribunais, sob pena da cairmos na justiça popular;
6) – compreendo os sentimentos do sargento, mas há uma lei para cumprir; se está mal, há mecanismos para corrigir os erros.
7) – qualquer aprendiz de Direito sabe que o “habeas corpus” não se aplica neste caso; e que nenhum tribunal se deixará influenciar por petições folclóricas. Se a lei foi mal aplicada, existem os recursos.

A ROTINA

Resolvi, hoje, escrever sobre a rotina. Isto, para alterar o dia-a-dia cheio do tédio de não escrever nada. Para quebrar a rotina, portanto.

 

Mas, antes que você, leitor, comece a ficar confuso, vou explicar-lhe o que é a rotina. A rotina mais não é que o quotidiano preenchido com os mesmos hábitos, os mesmos gestos, os mesmos pensamentos, as mesmas expressões ou palavras. É o levantar-se todos os dias à mesma hora, tomar o banho diário começando sempre por 4images.jpglavar a cabeça com o champô do costume, passar à lavagem do tronco ensaboando primeiro o peito depois as costas e daí descer às partes mais sensíveis, ou seja, os pés cheios de calos pelo uso rotineiro dos mesmos sapatos. Depois, é o fazer da barba sempre com os gestos de todos os dias, deixando o queixo para o fim, lavar os dentes sempre com a mesma escova, primeiro movendo-a na vertical, começando pelos dentes superiores, depois em gestos horizontais, começando pelo lado esquerdo e passando ao lado direito. Rotina é o vestir habitualmente a camisa por dentro das calças, a gravata sob a dobra do colarinho, o casaco por fora da camisa, calçar os sapatos sempre um em cada pé, invariavelmente por fora das peúgas. É o apanhar habitualmente o autocarro das 08,27h, repetir o gesto rotineiro de exibir o título de transporte. No emprego,3images.jpg é o intro­duzir o cartão — sempre o mesmo cartão—no relógio de ponto, que faz o rotineiro «catra-ploc»… Enfim, acho que já perceberam.

 

Então a rotina é má? Nem por sombras!

 

A rotina tem toda uma série de vantagens que só os espíritos menos lúcidos e mais obstruídos — não é o caso do autor — se atreverão a pôr em causa? Repare-se que a repetição quotidiana dos mesmos gestos e dos mesmos pensamentos evita-nos o desgaste intelectual de procurar novas atitudes, o que vai permitir desenvolver activamente a preguiça mental. Por outro lado, o corpo habitua-se, treina-se, torna-se exímio nesses gestos. Os gestos tornam-se infalíveis, precisos. Não se corre o risco de dar um beijo na secretária do chefe, por distracção, em vez de apertar a mão ao dito.

 

E a rotina aplicada à escrita? Ah! a rotina aplicada à escrita!…

 

Maravilha das maravilhas, a rotina aplicada à escrita traz-nos o produto final da moderna tecnologia de ponta, que é a frase estereotipada, ou estereótipo. O estereótipo literário permite-nos escrever correcta e claramente, sem o recurso a termos rebuscados tais como «logótipo», «hemiplégico», «caraças», «cloargirite», «redudante», isto só a título de mero exemplo, já para não falar de termos com pendor menos tecnocrático mas de sabor mais literário como «alvorada», «principalmente», «adultério», «florilégio», «a boazona do 2.° Esquerdo», etc.

 



2images.jpgQuantos de vós, principalmente os que trabalham em sectores ligados à justiça, se deixaram de deliciar com expressões estereotipadas que fazem parte do quotidiano, tais como «Tenho a honra de informar V. Ex.’», «a prisão foi legal porque efectuada em flagrante delito», «a arma que me está superiormente distribuída», «deferido», «com os melhores cumprimentos» etc.? Já viram com que facilidade se pode construir um texto de belo sabor burocrático a partir de felizes expressões de que as referidas são, apenas, arquétipos? Quem será incapaz de elaborar um relatório sem lhe enfiar, por exemplo, a frase «apesar de inúmeras diligências…»? Reparem que com esta frase, elástica e flexível, praticamente metade do relatório já está feito. E nem precisam de quantificar ou especificar as diligências. Não há que dar satisfações a ninguém; foram inúmeras e foram diligências! O resto pertence à área do segredo profissional, que não pode ser invadida.
Uma outra frase, que me esqueci propositadamente de referir, merece destaque especial. Por isso a deixei para o fim. É uma frase de pendor mais científico, com cambiantes de fino recorte literário e que, por isso mesmo, foi como que eleita rainha de todos os burocratas. Porque é uma frase que resolve praticamente todos os problemas. Porque é uma frase que não deixa ‘margem para dúvidas. Porque é uma frase que funciona um pouco como a presunção Juris et Jure: não admite contra-prova.
Preclaros e pacientes leitores, apresento-lhes «Para os fins convenientes».
Seja sincero, caro leitor-burocrata: como conseguiria informar o seu chefe que o autocarro esteve entalado num engarrafamento (e por isso chegou tarde) se não fosse «para os fins convenientes»? Como conseguiria justificar, perante a hierarquia a panada que deu com, a viatura de serviço, se não fosse «para os fins convenientes»? É «para os fins convenientes» que se apresenta um detido em tribunal, pede para se baldar ao serviço — ou justifica a balda do dia anterior — solicita uma audiência, requer um atestado. Podem contar-
-se pelos dedos os problemas que ficaram por resolver com a frase mágica. Aliás, estou em crer que o próprio mundo foi criado «para os fins convenientes», já que não vejo outra razão. E repare: se há um problema que você não conseguiu ultrapassar com a maravilhosa frase basta que do facto informe os seus superiores. Mas não se esqueça de dizer que informa «para os fins convenientes». Pronto. Problema resolvido.
Claro que você, ingénuo leitor, a esta hora está convencido de que o seu chefe, ao ver um documento «para os fins convenientes» em cima da mesa, fica atrapalhadinho.
Não, a sério, está? É nisso que pensa?
É por ter esses pensamentos, que você nunca conseguiu sair da cepa torta. Nunca chegou nem chegará a chefe! Porque você devia saber que o seu superior hierárquico nem pestanejaria. Num caso desses o chefe mantém-se imperturbável. Oual jogador de futebol, recebe a bola, prepara-a e chuta para cima com um rotundo, soberbo, infalível e definitivo «l douta consideração superior». E o seu papel vai subindo, subindo, subindo, até que você, já cansado, acaba por desistir. É que a hierarquia, meu caro, tal como o céu, não tem limites.
Mas atenção, muita atenção! É que à sombra do estereótipo queda-se, felino, vil, matreiro, subtil, enigmático, monstruoso, invisível, subversivo, omnipresente, estulto, sagaz, viperino, catastrófico, paradigmático, inconsequente, iconoclasta, ignaro, metamórfico, narcisista, insidioso, pérfido, caviloso, satânico, o «lapsus calami».
«Lapsus calami», o terror de engenheiros, arquitectos, juristas, magistrados, professores, polícias, advogados, políticos, etc.
Mas, afinal, o que é o «lapsus calami»? Apenas o fenómeno que nos leva a escrever uma coisa quando queríamos escrever outra bem diferente.
Acho que é melhor apontar exemplos. .1
Assim, um exemplo de «lapsus calami» é a inflação, quedar-se nos 6,5%. De certeza que não era aquilo que se pretendia dizer.
Outro caso: o célebre quadro representando o suicídio de Sócrates. Ali se vê que o filósofo com uma das mãos segura a taça da cicuta, enquanto que com a outra mão dá o último suspiro, o que é um grandessíssimo «lapsus calami», já que ninguém dá suspiros com as mãos.

Muitas vezes, e como atrás se disse, o «lapsus calami» deriva directamente de frases ou expressões estereotipadas, que se remetem para o papel de uma forma inconsciente. É bem conhecida a historia daquele polícia que, no seu relatório, escreveu que «o detido reagiu, pelo que tive de usar a forca muscular que me está superiormente distribuída».
Veja-se, a título de outro exemplo, um douto despacho de um juiz: «A detenção foi legal, porque em flagrante delito, por isso a valido». Frase estereotipada, pois, com o «lapsus calami» à espreita, preparado para saltar para o texto. Vejamos a continuação do despacho: «Os autos não indiciam fortemente, nem sequer suficientemente, que o arguido tenha cometido qualquer crime, nomeadamente de tráfico de droga».
Então, como é? O arguido foi detido em flagrante delito de quê?
Um outro caso curioso é o daquele Magistrado que promoveu que o arguido aguardasse «em prisão perpétua» os ulteriores termos do processo. Ê claro que o Digm.”, desta forma, veria resolvido o problema dos prazos, já que o C.P.P. é omisso quanto ao regime de prazos no cumprimento da prisão perpétua.
Acho eu

Aliás, creio que é omisso quanto à aplicação da prisão perpétua. 
É por isso que estou em crer que o Magistrado queria dizer «prisão 
preventiva», mas o «lapsus calami» atraiçoou-o.
É.
Deve ter sido isso...

Voltando à rotina propriamente dita e às suas vantagens, é que com o tempo vamos construindo intimamente toda uma estrutura cujos elementos se interligam de tal maneira que não admitem elementos estranhos. Por exemplo, os polícias. Já viram que maravilha é se tiverem de fazer uma participação de um crime e tiverem tido o cuidado de guardar cópias de participações de colegas mais antigos? Certamente que encontrarão um modelo que se adapte ao seu caso concreto. Aliás, polícias há que criaram modelos que tanto servem para cheques sem cobertura como para homicídios, passando, por exemplo, por desvio de aeronaves e disseminação de epi-zootias. Dão para tudo. Ê só mudar umas coisinhas aqui e ali, designadamente os nomes das partes envolvidas, e a participação está feita.
Se, por exemplo, o polícia está perante um caso de homicídio qualificado, mas só tem o modelo que dê para furto qualificado, não há que ficar atrapalhado. A solução é simples: participem o furto qualificado, e alguém se encarregará de o corrigir — se calhar… Não devem é participar o homicídio, de forma alguma. Se assim o fizerem, terão de alterar toda a estrutura do modelo e, o que é mais importante, terão de alterar toda a estrutura mental. VÃO TER DE SAIR DA ROTINA! E depois, qual é o problema? Não tiraram a vida à vítima? Então, pode ser furto!
Tudo menos sair da rotina. Poupem esforço físico e mental. Não esqueçam de que o esforço físico é necessário para o descanso, e precisam da mente para tentar não pensar em nada.