«CACOFONIAS E OUTROS CACOS»

Depois de um longo interregno motivado por questões de saúde, eis-me de regresso à blogosfera. E para regressar em grande, nada melhor que um fescenino plágio. Exacto.
Da autoria de António Marques, publicada no utilíssimo (e imprescindível!) “TENTO NA LÍNGUA!… 2″ da “Plátano Editora”, eis a explicação para algumas dúvidas que nos vão assaltando.
Com a devida vénia:
«Não me levem a mal, mas não fujo à tentação de abordar o tema das cacofonias. Tem muito interesse, não só linguístico como também psico e sociolinguístico.
Desde logo, para sabermos que cacofonias e palavras obscenas, na sua maior parte, como parece, provêm de palavras latinas ou gregas que, por lá, nem todas teriam, pelo menos inicialmente, esse sentido; foram-no tomando num processo de evolução semântica. Mesmo essa que a toda a hora se ouve por aí, dita desbragadamente por tantas pessoas e que os espanhóis e gentes do Norte dizem simplesmente nas suas divergentes: carajo ( de que o dicionário espanhol diz apenas que “es voz malsonante“) ou carago (que o cronista desportivo “nortenho” José Estebes tanto usa nas suas crónicas). Dessas três formas divergentes do mesmo étimo – caraculu(m) (= pequeno pau) nem todas têm a mesma carga semântica, maliciosa ou mesmo obscena, sendo a tal forma nortenha a mais inocente.
Do ponto de vista sociopsicolinguístico convém lembrar que as palavras carregadas de maior sentido obsceno têm geralmente a ver com as chamadas partes pudibundas – sexo ou ânus – ou, melhor ainda, com as respectivas funções fisiológicas. Haja em vista a tal sugerida no segundo parágrafo e a correspondente feminina que, também ela, provém de étimo muito inocente, tão inocente que até significava berço em que se embalavam os bebés romanos: cuna-ae (= berço, ninho de ave), mais usado no plural com o mesmo significado.
Quanto ao elemento caco de origem grega [do adjectivo kakos que significa: feio, sujo, disforme, defeituoso], o Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de J. Pedro Machado, Círculo de Leitores, regista mais de cem vocábulos, na sua maioria de cariz erudito, em que este elemento empresta sempre ao vocábulo a ideia de fealdade ou maldade, vício ou defeito, físico ou moral. Dele deriva o verbo latino caccare que significa isso mesmo que o leitor está a pensar e que nem o Torrinha foi capaz de escrever no seu dicionário, onde apenas indica o erudito defecar.
(…)
E, já agora, para provar a afirmação inicial de que a maldade ou mesmo a obscenidade de palavras foi sendo dada pela malícia dos falantes, individual ou colectiva, no processo evolutivo fonético e semântico, às vezes a palavras muito honestas, muito dignas e até envolvidas duma certa sacralidade, não fujo a referir o que segue.
Há um domingo, não me lembro agora qual, em que o texto do evangelho era a parábola do administrador. A certa altura, o mau administrador diz: “Quid faciam? Fodere non possum, mendicare enrubesco.” O que, em linguagem, significa: “O que hei-de fazer agora? Cavar, não posso; mendigar, tenho vergonha.” Podemos imaginar o cuidado do leitor – padre ou diácono- procurando, na recitação ou no canto, engrolar a passagem do texto latino, onde vem o que bem popderia ser o étimo, muito legítimo, muito digno, de um verbo português pertencente a um grupo a um grupo léxico altamente obsceno, de modo a não suscitar a malícia dos fiéis em local e função tão sagrada…
Só mais um parágrafo sobre palavras feias (caco-). Com “repressão” social, escolar e religiosa que ajudam a moldar os comportamentos e linguagens, a tendência dos falantes atingidos tem sido para contornar as palavras obscenas ou simplesmente feias, mediante a criação de novas palavras que as substituam decentemente. Dizer méscara não não era pecado nem má-criação, assim como dianho, diacho, dialho (diabo nem pensar), pôssa ou pôssara e, mais recentemente, fogo. Carvalho, já nem tanto, sugeria de mais pela rima. As crianças – e não só – se usassem as substituídas tinham (não sei se ainda têm…) de confessar-se disso, de dizer palavras feias…»

“CUANDO SALI DE CUBA…”

Havana. “Havana Velha”, por oposição a “Havana Moderna”, esta mais… rica. Melhor será dizer “menos pobre”.

Havana Velha. Prédios degradados, escorados. Numa varanda sem resguardo, uma mulher estendia roupa, para secar, no segundo andar de um edifício a ameaçar ruína de um momento para outro.

Um companheiro de viagem, demonstrando profundo conhecimento, elucidava-me:

- Sabe, eles têm dois problemas: o “bloqueio” dos E.U.A. e a Revolução, que só começou em 1959…

Interrompi-o:

- Desculpe, em Portugal não temos bloqueio, mas também temos casas a cair; e quanto à Revolução, não é desculpa, a não ser que os cubanos sejam muito lentos. É que em Portugal, desde 1974 já tivemos tempo para fazer uma revolução, e uma contra-revolução – que já está em curso. Tenha paciência, mas não me convence.

O companheiro de viagem encolheu os ombros, e desatou a assobiar baixinho o “Guantanamera…”.

Praia de Varadero.

Chafurdando nas águas cálidas, a várias dezenas de metros da praia, ouço uma voz: “Donde es usted?”

Deparo com outro companheiro de banho e respondo: “ De Portugal”.

Ah! Portugal…”.

Conhece?”.

Que não, respondeu. Mas sua mulher é canadiana, e os pais dela são portugueses, explicou.

E de onde é você?” – perguntei.

Yo soy cubano!”.

Mostrei a minha perplexidade. Para ir até à praia, tinha de passar pelo hotel; e para passar pelo hotel, tinha de ser hóspede.

Mas ele explicou: não tinha que passar pelo hotel. Bastava-lhe vir a nadar.

Olhando melhor, reparei que o homem usava óculos de natação, barbatanas e equipamento ligeiro, para respirar.

Quieres comprar habanos puros?”

Obrigadinho, não fumo”.

Nunca me passou pela cabeça comprar charutos no meio do mar, de calção-de-banho vestido; mas em Cuba, é possível.

Pelos vistos.

Prolongou a conversa. Explicou que tinha sido empregado num dos hotéis da zona, mas que tinha sido apanhado pela polícia a vender charutos. Que, como se sabe, só podem ser vendidos em lojas do Governo.

Como penalização, pagou uma multa e foi expulso do emprego.

Claro que não acreditei. Que tivesse pago a multa, ainda vá; agora, ficar sem emprego só porque…

Confirmei a história com um empregado do hotel. Que sim senhor, que é verdade. É o que acontece a quem é apanhado.

Es Cuba. Pero… usted quiere puros Cohibas”?

O cubano passa necessidade; mas não mendiga. Pelo menos da forma a que estamos habituados – com a mão estendida.

O cubano aproxima-se, entabula conversa e, na altura julgada apropriada, pergunta se temos roupa que não queiramos. Não pedem dinheiro, nunca pediram dinheiro. Pedem sabonetes, roupa (”mesmo suja, nós lavamos”).

Quando se dá, a boca só diz “gracias”; mas os olhos, esses, falam que se fartam.

Para quem ainda não o conhece, em Cuba pode descobrir o prazer de dar.

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Um companheiro de viagem pretendeu comprar um medicamento. Fomos à “Farmácia Municipal”, onde lhe foi proporcionado o produto que pretendia.

Quanto devo?”, perguntou olhando para o preço (que não sabia se estava em dólares se em pesos).

Esta es una farmacia municipal, no tiene que pagar nada. Pero si quiere dejar algo…”.

A funcionária da farmácia olhou para mim: “Usted es portuguès”?

Respondi que sim. “Llevame una carta para Portugal”?

Uma carta? Por que não?

Explicou-me: tinha conhecido “un chico” que lhe deixou um número de telemóvel e um endereço para correspondência. Endereço do Porto.

Só que não conseguia ligação pelo telemóvel, e mandar uma carta pelo correio fica muito caro. Se eu não me importasse…

Claro que não. Li o endereço: Rua da Finlândia… Rua da Finlândia? Não conheço. Mas também não sou obrigado a conhecer todas as ruas do Porto.

Não existe, a Rua da Finlândia.

Ah! Grande portuga! Férias “com tudo incluído”, não é verdade?

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Os portugueses não levam a crise para Cuba.

Em Varadero os portugueses são mais que muitos. Só peço é que o Dr. Félix não leia isto. A poucos metros de mim, comentários em português:

- Olha. Estes devem ser ricos. Abandonaram as toalhas. Não lhes custa a pagar os dez dólares de caução.

- Deixa lá. Empurra as cadeiras para lá.

Passado pouco tempo, o grupo aumentava. Já eram para aí uns doze, todos ao molho sob a cobertura de colmo.

Ouve-se, em inglês (que eu traduzo):

- Vocês mexeram nas cadeiras…

Respondem, em português:

- Não te percebo, mas isto é tudo nosso. Estes lugares são todos nossos.

E a inglesa lá teve de ir procurar outras paragens.

Senti-me orgulhoso! Deve ter sido mais ou menos assim que os nossos ancestrais conquistaram o Império!

Infelizmente, aqueles portugueses chegaram a Cuba com mais de quinhentos anos de atraso.

Em Habana Velha, o problema da habitação é facilmente resolvido. As casas de estilo colonial, têm o pé-direito muito alto.

Simples: divide-se a altura por dois, intercalando um piso.

Trinidad, cidade Património Mundial.

Ali, a vida parou no tempo. Aliás, o tempo também parou. As casas, que os moradores mostram orgulhosamente, mantêm a traça e o mobiliário de antanho. Tudo conservado artesanalmente, que a mão-de-obra (como tudo, aliás) é caríssima.

Duas jovens aproximam-se e pedem roupa. Uma companheira de viagem lamenta, mas deixou a roupa no hotel… a mais de cinco quilómetros. “No hay problema”. Um olhar para a pulseira, e o hotel é identificado (nos hotéis, uma pulseira em plástico identifica não só o regime da estada mas também a própria unidade hoteleira). “Si estás en la playa por la tarde, te busco”.

Não havia transporte público desde Trinidad até ao hotel; mas as jovens lá estavam, na praia, prontas para receber a roupa.

Cuando salí de Cuba”… trouxe comigo uma enorme, profunda, vontade de voltar.

AS CRISTANDADES PAPAIS

O Papa e o nazismo


por Augusto Buonicore*

Este artigo não tratará do atual pontífice, Bento XVI, apesar de ter sido membro da juventude hitlerista, e nem da onda clerical reacionária que varre várias regiões do mundo, especialmente no Leste Europeu. Na Polônia, por exemplo, o Estado dá suas mãos à cúpula Igreja Católica para ressuscitar o que de pior existe na tradição conservadora cristã: o anticomunismo, o anti-semitismo, a homo-fobia e a misoginia.



Hitler cumprimenta bispos católicos

Trataremos aqui de outro momento histórico, quando foram estabelecidas sombrias relações entre o papado e o nazi-fascismo. Talvez estas reflexões sobre o passado nos ajudem a elucidar os dramas do tempo presente. Este artigo utilizará amplamente as referências contidas no livro O papa de Hitler do professor e jornalista liberal inglês John Cornwell.

O Tratado de Latrão: O papado e o fascismo italiano

No ano de 1860 o Estado Italiano, que caminhava para unificação, se apoderou de todos os domínios do Papa, menos Roma. A cidade continuava a ser protegida pelas tropas francesas de Napoleão III. Como resposta aos novos tempos de revolução o Papa Pio IX aprovou o documento “Sílabo de erros” (1864) – denunciando os grandes malefícios da modernidade: a democracia, o socialismo, a maçonaria e o racionalismo.


Seguindo na trilha do reacionarismo clerical, em 1870, o concílio Vaticano I estabeleceu o dogma da infalibilidade do Papa. Este, como legítimo representante de Deus na terra, estaria imune aos erros humanos. No entanto, antes que o Concílio chegasse ao fim, as tropas francesas foram obrigadas a abandonar Roma para defender sua própria capital, ameaçada pelos prussianos. Imediatamente o exército italiano entrou na cidade, unificando finalmente o país. Ao papado coube apenas o pequeno território: o Vaticano.


Pio IX recusou qualquer acordo com o governo italiano e pregou a abstenção política dos católicos. O ambiente clerical se tornou cada vez mais reacionário. As pazes entre o Vaticano e o Estado Italiano só pode ser estabelecida com a ascensão do fascismo ao poder em 1922.


Em fevereiro de 1929 o papa Pio XI firmou com Mussolini o Tratado de Latrão, através do qual o catolicismo voltava a ser a religião oficial e o Estado passava a aceitar os casamentos religiosos. A Santa Sé também expandiria sua soberania para outros prédios e igrejas de Roma, além do Palácio de verão em Castel Gandolfo. O fascismo italiano ainda pagaria uma indenização equivalente a 85 milhões de dólares pelos territórios e propriedades expropriados durante o processo de unificação italiana. Assim, o Santo Padre pode se referir a Mussolini como “um homem enviado pela Providência”.


Pelo Tratado de Latrão, os católicos deveriam se abster da política, especialmente de uma política autônoma que se contrapusesse ao governo fascista. A conseqüência imediata deste acordo foi o fechamento do Partido Popular (católico) e o exílio de seus principais líderes. Enquanto o Papa e os fascistas comemoravam, dezenas de milhares de italianos, muito deles católicos, padeciam sob torturas nas inóspitas prisões do regime.


Hitler, ainda sonhando com o poder, rejubilou-se com as boas novas vindas de Roma. Escreveu ele: “O fato de que a Igreja Católica chegou a um acordo com a Itália fascista (…) prova que além de qualquer dúvida que o mundo das idéias fascistas é mais próximo do cristianismo do que o liberalismo judeu ou mesmo o marxismo ateu, a que o Partido do Centro Católico se considera tão ligado”. O Tratado de Latrão foi o primeiro torpedo dirigido contra os liberais e democratas católicos da Itália e da Alemanha, outros viriam.


Quando Mussolini invadiu a Etiópia, em 1935, o Vaticano não protestou e o alto clero italiano, sem amarras morais, exultou com a aventura colonialista. Um bispo declarou: “Ó Duce, a Itália hoje é fascista e os corações de todos italianos batem junto com o seu!”. “A Nação está disposta a qualquer sacrifício que garanta o triunfo da paz e das civilizações romana e cristã”. Enquanto isso armas químicas caiam sobre as cabeças da indefesa população etíope.

O papa e a ascensão do nazismo

Em novembro de 1918 os operários alemães, seguindo o exemplo de seus camaradas russos, derrubaram o seu Imperador e fundaram uma República Democrática, que chegou mesmo a se anunciar como uma República Socialista. Mas, a capitulação da direção do Partido Social-Democrata Alemão frustrou os sonhos dos revolucionários.


Em Munique um dos principais líderes era Eisner que, em fevereiro de 1919, seria brutalmente assassinado por ativistas de extrema-direita. A resposta do governo socialista ao crime foi o endurecimento com os setores contra-revolucionários, no qual se incluía a cúpula da Igreja Católica. Neste quadro conturbado o Núncio papal Eugênio Pacelli, futuro papa Pio XII, foi obrigado a estabelecer delicadas negociações com o novo governo democrático e socialista.


Assim ele descreveu o seu primeiro encontro com os operários e as operárias socialistas: “A cena no palácio era indescritível (…) o prédio, outrora a residência de um rei, ressoava com gritos, uma linguagem vil e profana (…) No meio de tudo isso, um bando de mulheres, de aparência duvidosa, judias como todos ali, refastelava-se em todas as salas, como uma atitude devassa e sorrisos sugestivos. Quem mandava nessa turba feminina era a amante de Levien, uma jovem russa, judia e divorciada.

Foi a ela que a Nunciatura teve de prestar sua homenagem, a fim de prosseguir sua missão”. O dirigente socialista Levien não lhe causou melhor impressão: era “russo e judeu” “pálido, sujo, olhos de drogado, voz rouca, vulgar, repulsivo”. Assim a Igreja católica via os representantes do proletariado alemão.


No auge da República de Weimar, os católicos representavam 1/3 da população alemã e tinham uma força política ainda maior. A Juventude Católica possuía mais de 1,5 milhões de membros e existiam 400 jornais católicos diários. O tradicional Partido de Centro Católico era o segundo maior do país, perdia apenas para o Partido Social-Democrata Alemão. Era nele que, até então, a grande burguesia desaguava seu dinheiro e voto contra o socialismo.


Após a grande crise do capitalismo de 1929, a Alemanha teve sua economia desorganizada. Aumentou a radicalização política. Visando derrotar o movimento operário e socialista, a grande burguesia monopolista muda de aliado, abandona os católicos e passa agora a jogar suas fichas nos nacional-socialistas liderados por Hitler.


Já nas eleições de 1930, o Partido de Centro perdeu espaço para os nazistas, que passaram a ser a segunda força eleitoral. Naqueles dias ainda eram duros os embates entre os centristas católicos e os nazistas. Vários padres, com anuência dos bispos, proibiam os nazistas freqüentar as igrejas enquanto fardados. No entanto, esta resistência estava prestes a desaparecer.


Sob a cabeça dos católicos alemães, o Vaticano tecia sua pérfida trama. Em janeiro de 1933 Hitler assumiu o poder. Estavam dadas as condições para que se estabelecesse uma concordata com o Reich alemão do mesmo tipo que fora assinada com o governo fascista da Itália.


Para testar sua força, uma das primeiras medidas do governo nazista foi apresentar um projeto de Lei de Exceção, através do qual Hitler ficava autorizado a aprovar leis sem consultar o parlamento. Vários dirigentes do Partido de Centro resistiram em dar carta branca ao novo governo.

Então o Vaticano entrou no jogo e pressionou para que eles votassem favoravelmente – pois esta era uma das condições para a assinatura da concordata. Apenas os socialistas e comunistas votaram contra a lei de exceção. Estava aberto o caminho da ditadura nazista, com a benção de Roma.


Em julho daquele mesmo ano, Pacelli, em nome de Pio XI, assinou a concordata com o governo nazista. A partir de então a Igreja Católica e todas as suas organizações deveriam se afastar de qualquer de ação política e social. Em troca o papado poderia impor suas leis canônicas a todos os católicos alemães, além de receber privilégios espaciais para o clero e suas escolas.


Naquele mesmo mês, como aconteceu na Itália, o Partido Católico se dissolveu e muitos de seus líderes seguiram o caminho do exílio. A repressão aos católicos militantes continuou duríssima, com espancamentos e internações em campos de concentração. Muitos acabaram sendo assassinados ao lado de comunistas e judeus.


Um ex-chanceler centro-católico chegou a afirmar que por trás daquela concordata estava Pacelli, que visualizava “um Estado autoritário e uma Igreja autoritária dirigida pela burocracia do Vaticano, os dois concluindo uma eterna aliança. Por esse motivo, os partidos parlamentares católicos (…) eram inconvenientes (…), sendo extintos sem qualquer arrependimento”. Portanto não se tratava mais de barrar apenas o perigo comunista e sim abolir a própria democracia liberal.


Logo após a concordata, o Führer afirmou orgulhoso: “só se pode considerar isso como uma grande realização. A concordata proporcionará uma oportunidade à Alemanha e criará uma área de confiança bastante significativa na luta em desenvolvimentos contra o judaísmo internacional”. Continuou: “O fato de o Vaticano estar concluindo um tratado com a nova Alemanha significa o reconhecimento do Estado nacional-socialista pela Igreja Católica. Esse tratado comprova para o mundo inteiro, de maneira clara e inequívoca, que a insinuação de que o nacional-socialismo é hostil à religião não passa de uma mentira”. Todas as barreiras de ordem moral, que separavam nazistas e católicos, foram minadas pelo Vaticano.

Em abril de 1933 começaram as primeiras perseguições massivas contra a comunidade judaica, através do boicote aos seus estabelecimentos comerciais e espancamentos de judeus por tropas das SA. A primeira resposta dos líderes máximos da Igreja alemã foi: “Os judeus que ajudem a si próprios”. Sem dúvida, uma frase muito cristã.


Durante a Guerra Civil na Espanha, em 1936, Hitler se encontrou com o Cardeal Faulhaber, de Munique. A pauta era a ameaça representada pelo comunismo. O Cardeal deu sua impressão sobre o amistoso encontro com Sr. Hitler: “O Führer possui uma habilidade diplomática e social melhor do que um soberano nato (…) Não resta a menor dúvida de que o chanceler vive com a fé em Deus. Ele reconhece o cristianismo como base da cultura ocidental”. Em seguida elaborou uma carta pastoral que foi lida nas igrejas alemãs, nela pregava a cooperação entre católicos e nazistas contra o comunismo ateu.


No final de 1938 estourou a violência contra os judeus. Numa única noite de novembro, a “noite dos cristais”, mais de 800 deles foram assassinados, 26 mil enviados para campos de concentração, centenas de Sinagogas e estabelecimentos destruídos. Depois deste dia fatídico os judeus foram obrigados a portar a estrela de David nas roupas.


Enquanto o holocausto judeu dava seus primeiros passos na Alemanha, Pacelli assumia o trono pontífice. Quatro dias depois escreveu à Hitler: “Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Führer e Chanceler do Reich Alemão! No início do nosso pontificado, desejamos lhe assegurar que permanecemos devotados ao bem-estar do povo alemão confiado a sua liderança”. Nenhuma admoestação em relação à repressão contra os judeus e setores de oposição, nos quais se incluíam vários católicos.


Quando Hitler e Mussolini invadiram a Iugoslávia, eles permitiram a criação de uma Croácia Independente sob o comando do líder fascista Ante Pavelic. Os croatas eram católicos e se consideravam arianos. Sob seu reinado de terror iniciou-se uma limpeza étnica na região. 487 mil sérvios, 30 mil judeus e 27 mil ciganos foram assassinados barbaramente pelos bandos fascistas de Paveli. À frente desses bandos sanguinários estavam os padres franciscanos. O Vaticano imediatamente reconheceu o novo Estado e Pio XII se referiu a ele como “posto avançado do cristianismo nos Bálcãs”. Uma das eminências pardas daquele regime de terror era o bispo Stepinac – que acabou sendo beatificado por João Paulo II em 1998.


Em 1942 o Papa já tinha todas as informações sobre o projeto de “Solução Final”. Operação que visava eliminar judeus, ciganos e eslavos da Europa. Entre 1933 e 1944 mais de seis milhões de judeus foram assassinados nos campos de extermínios nazistas. Depois de forte pressão das forças aliadas – e de muitos católicos e judeus-, Pio XII preparou uma homilia de Natal que visava denunciar esta situação. Para decepção geral ela acabou sendo uma declaração inócua que nem ao menos teve a coragem de usar as palavras judeu, genocídio e nazismo.


Em setembro de 1943, quando a própria Roma caiu sob ocupação militar alemã, a “solução final” chegou às portas do Papa. Começou, então, o aprisionamento de judeus e oposicionistas. Caminhões carregando homens, mulheres e crianças percorriam as ruas vizinhas ao Vaticano. Muitas igrejas começaram a abrigar os judeus, especialmente os convertidos ao catolicismo. Mas, nenhuma conclamação pública foi feita para que os católicos se opusessem às deportações e o massacre de milhares de cidadãos italianos.


Ciente da boa vontade do Papa, o embaixador alemão enviou para o seu chefe uma carta na qual afirmava: “O papa, embora sob pressão de todos os lados, não se permitiu ser levado a uma censura expressa da deportação dos judeus de Roma. Embora deva saber que tal atitude será usada contra ele por nossos adversários (…) mesmo assim o papa fez tudo o que era possível para não prejudicar as relações com o governo alemão”.


Naqueles dias fatídicos, a preocupação de Pio XII não era com as famílias italianas deportadas, ou com a cidade ocupada pelos bárbaros nazistas, mas com os partisans que lutavam pela libertação da Itália. Temia que uma abrupta saída dos alemães pudesse deixar a cidade nas mãos da resistência comunista. “Os alemães, afirmou ele, pelo menos, haviam respeitado a cidade do Vaticano e as propriedades da Santa Sé em Roma”. A sorte de Pio XII é que Deus não existe, pois se existisse o fulminaria com um raio diante de tal heresia.


Em 23 de março de 1944 um grupo de guerrilheiros atacou um comando alemão e matou 33 invasores. Este ato heróico foi duramente criticado pelo Vaticano e definido como terrorismo. A resposta alemã foi assassinar friamente 335 italianos. A Santa Sé simplesmente se lastimou pelas pessoas sacrificadas “em lugar dos culpados”. Em outras palavras, o Papa não se oporia se os fuzilados fossem os membros da resistência italiana.

O papa e a guerra-fria

Quando, finalmente, Roma foi libertada, o Sumo Pontífice enviou uma singelo pedido, mui cristão, ao alto-comando das Forças Aliadas na Itália no qual dizia: “O papa espera que não haja soldados pretos entre as tropas aliadas que ficarão aquarteladas em Roma depois da ocupação”.

Nazistas sim, soldados negros não. Neste caso a preocupação do Santo Papa não eram as propriedades do Vaticano e sim a virgindade das moças italianas. A hecatombe universal não foi suficiente para remover os preconceitos raciais do representante de Deus na terra.


No imediato pós-guerra estabeleceu-se uma sólida aliança entre o Vaticano e o imperialismo norte-americano. O primeiro, e mais sombrio, resultado desta nova concordata foi a cobertura dada à fuga de inúmeros criminosos de guerra nazistas para a América do Sul e Estados Unidos. Eles ainda poderiam ser úteis na luta contra o comunismo.


Milhões de dólares foram investidos na reorganização da Democracia Cristã, na Itália e na Alemanha. Desmontada para ajudar o nazi-fascismo e agora reorganizada para derrotar a esquerda socialista. Em 1949, o Papa determinou que os católicos não deveriam ser membros e nem votar nos Partidos Comunistas. Os padres estavam autorizados a recusar os sacramentos a quem desobedecesse estas ordens. As excomunhões se proliferaram por todo o mundo, inclusive no Brasil.


O mesmo Pacelli que advogou a colaboração de católicos e nazistas – ou o silêncio obsequioso em relação aos crimes destes últimos – agora passava a defender uma igreja politicamente ativa contra o comunismo; apoiando, inclusive, de maneira irresponsável, o martírio pessoal dos seus bispos no Leste Europeu.


O conservador Pio XII foi sucedido por três papas progressistas, João XXIII, Paulo VI e João Paulo I que procuraram estabelecer algum diálogo com o mundo socialista, incentivaram teólogos da libertação e defenderam certo ecumenismo. Mas esta fase teve curtíssima duração – foi apenas de 1958 até 1978. João Paulo II retomou o ciclo conservador que agora tem no Papa Bento XVI sua versão radicalizada. Dias difíceis podem esperar os católicos progressistas do mundo. Diante deste quadro sombrio só nos resta suplicar: “Que Deus nos proteja …. do Santo Padre!”

Bibliografia:
Cornwell, John – O papa de Hitler: A história secreta de Pio XII, Ed. Imago, RJ, 2000

Filmografia:
Amém – Diretor Costa Gravas
Roma, cidade aberta – Diretor Roberto Rosselini

DÚVIDAS PASCAIS



- Papai, o que é Páscoa?

- Ora, Páscoa é… bem… é uma festa religiosa!

- Igual ao Natal?

- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.

- Ressurreição?

- É, ressurreição. Marta, vem cá!

- Sim?

- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.

- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?

- Mais ou menos… Mamãe, Jesus era um coelho?

- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi baptizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!

- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?

- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.

- O Espírito Santo também é Deus?

- É sim.

- E Minas Gerais?

- Sacrilégio!!!

- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?

- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!

- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?

- Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.

- Coelho bota ovo?

- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!

- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?

- Era… era melhor, sim… ou então urubu.

- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia que ele morreu?

- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.

- Que dia e que mês?

- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.

- Um dia depois!

- Não, três dias depois.

- Então morreu na quarta-feira.

- Não! Morreu na Sexta-feira Santa… ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!

- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?

- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.

- O Judas traiu Jesus no sábado?

- Claro que não! Se Jesus morreu na sexta!!!

- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?

- Ui…

- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?

- Cristo. Jesus Cristo.

- Só?

- Que eu saiba sim, por quê?

- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa  faz sentido, não acha?

- Ai Coitada!

- Coitada de quem?

- Da sua professora de catecismo!

( In http://www.ateufeliz.hpg.ig.com.br/DuvidasPascais.htm - COM A DEVIDA VÉNIA).

Posted: Monday, April 02, 2007 6:19 PM por Zemoreira | 0 Comentário(s) [Editar]

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Quem dá aos pobres…

Quando eu entro num banco e ali procedo a um depósito do meu dinheiro estou, na prática, a emprestar dinheiro a esse mesmo banco. Um “empréstimo” pressupõe, por definição, a cedência de uma coisa a outrem, com a condição de a coisa ser devolvida. Tratando-se de um banco, e porque as condições assim o definem, a restituição deverá ser acompanhada de juros respectivos.

Na religião islâmica, um dos cinco pilares do Alcorão impõe a caridade como um dos preceitos a cumprir pelos crentes. A religião católica parece não impor tal virtude, mas sempre vai dizendo que “Quem dá aos pobres, empresta a Deus”. E este é o busílis da questão, quanto a mim. Ao aconselhar seus crentes a praticar a caridade, ou seja, a dar aos pobres está, implicitamente, a prometer que Deus devolverá a dádiva. Se com juros ou sem eles, não interessa. O que conta é que o dador tem a “garantia”(?) de que a dádiva será devolvida. Pelo que, o que deveria ser um acto de amor e solidariedade, acaba por ser um acto interesseiro.

Não é caridade, é um investimento.

A BEBÉ APARECEU!!!!

De acordo com os jornais – designadamente o mui católico “Jornal de Notícias” -  a bebé que, em Fevereiro do ano passado, tinha sido raptada do Hospital Padre Américo, apareceu. Amigos e familiares agradecem à senhora de Fátima o “milagre”, e até já planeiam procissões, peregrinaçãoe e, cereja em cima do bolo, a criança irá ser baptizada em Fátima.  De tudo isto o mui católico “JN” dá notícia, com grande profusão de fotografias de  gente a prestar culto a uma estátua. E da estátua evidentemente!

Analisemos:

1) – Onde estava a senhora de Fátima quando a criança foi raptada? Distraída e não viu? Esta hipótese não é credível, já que, se não viu o rapto não podia saber onde estava a criança. Conclusão: viu, e não se importou. Conclusão 2: deve ser constituída arguida por cumplicidade.

2) – Durante mais de um ano, a senhora de Fátima soube onde se encontrava a bebé e, em vez de denunciar o facto às autoridades, manteve-se calada. Logo, deve responder como encobridora. Em vez disto, é promovida à categoria de heroína da festa.

3) – O mui católico “JN” não disse a verdade! Atitude pouco católica, convenhamos. Ou talvez não… Quem fez o milagre do aparecimento, foi uma familiar da arguida suspeita do rapto. Era essa que merecia uma peregrinação, uma procissão, e outras coisas assão (perdão: assim).

4) – O único “milagre” da senhora de Fátima vai consistir em dádivas que vão cair no santuário – que os diligentes padres diligentemente embolsarão, para gáudio do Imperador vitalício do Vaticano.

A Igreja católica é pela vida

Não há dúvida de que a Igreja católica é pela vida. A fazer pela vida exterminou índios; a tratar da vida queimou hereges; na defesa da vida eterna eliminou ímpios.

A ICAR sempre foi uma referência na defesa da vida, fosse nas torturas que usava a Inquisição, procurando que as vítimas resistissem durante o máximo tempo, no esbulho de bens dos incrédulos para que a vida dos seus padres estivesse livre para Deus, ou na venda de indulgências aos pecadores para que a vida do clero fosse flauteada.

A vida sempre foi o objectivo. Quando grelhava réprobos era para lhes assegurar a vida eterna; quando fazia escravos era para os baptizar e livrar das trevas; se raptava crianças era para lhes assegurar a vida celestial.

Quem pode ser tão obstinado pela vida a ponto de garantir a eternidade a quem ame e obedeça ao único Deus verdadeiro?

O fundamentalismo levou o Papa, os bispos, padres e outros primatas pios a defenderem a vida desde o espermatozóide até ao óvulo, trajecto que acompanham com pias orações e devotado afecto.

Todos os primatas paramentados andam numa dobadoira a policiar vaginas e espreitar glandes para que não se percam na estrada da infertilidade os veículos da vida.

É esse grande desígnio que os leva a condenar as provetas e a reprodução medicamente assistida. Se os homens e as mulheres começarem a fazer filhos como se fazem tractores corre-se o risco de que o acto sexual se transforme em método para fabricar veículos, enquanto as almas, feitas doidas, se perdem no caminho.

# um artigo de Carlos Esperança, in “Diário Ateísta”

ABORTO: NIM, OU SÃO?

O CIDADÃO E A POLÍCIA

Dia 13 de Dezembro de 2006. Em pleno séc. XXI, portanto.

O cidadão conduz o seu veículo pela Avenida dos Aliados, no Porto. Subitamente, nota que a embraiagem deixou de responder. Insiste, insiste, e nada. Remédio imediato: encostar à berma e chamar o mecânico. Sai do carro, veste o colete regulamentar (trata-se de um cidadão cumpridor…) e empunha o telemóvel.
Não teve tempo para telefonar. Atrás do seu carro, estaciona um carro-patrulha da PSP. Do interior sai um agente fardado:
- Então, que temos?
- Julgo que foi o cabo da embraiagem – dilucidou o cidadão. – Ou partiu, ou se soltou.
O Agente avaliou rapidamente a situação:
- Abra o “capot”, se faz favor.
O cidadão, cumpridor, obedeceu ao cívico; este, uma vez feita a sua vontade, mergulhou, literalmente, em tudo o que era cablagens, tubos, engrenagens, fios eléctricos, enfim, toda aquela parafernália que, normalmente, se encontra sob a tampa do motor. Emergiu pouco depois e, para espanto do cidadão, proferiu:
- Está resolvido. Mas é só para desenrascar. Tem de ir à oficina.
- Pois – diz o cidadão. – Eu ia já telefonar…
O polícia não deu tempo a terminar:
- Quer que o leve?
O cidadão começava a deixar transbordar o espanto. “Isto não está a acontecer comigo!!!”. No entanto, ainda teve a lucidez suficiente para discernir que, com um carro-patrulha a abrir caminho, chegaria mais rapidamente à oficina. Pelo que decidiu aceitar a oferta:
- Se faz favor…
Pelos vistos, porém, ainda era cedo para o cidadão fechar a torneira do espanto. Adianta o guardião da lei e da ordem:
- Diga onde é a oficina e dê-me a chave do carro.
E aqui temos o cidadão a olhar, especado, para o seu rico carrinho, magistralmente conduzido por um Agente da PSP, a caminho da oficina mecânica, acompanhado por um carro-patrulha!!! Tão especado ficou, que nem reparou que as chaves do escritório tinham ido juntamente com a chave do carro. Telefonou à mulher:
- Querida, por favor vai à oficina, que o meu carro já lá deve estar. Tiras as chaves do escritório e traz-mas. Mete-te no teu carro…
Mas não foi preciso. Quando a esposa chega à oficina, está a chegar o carro do marido – do cidadão sub judice, entenda-se – conduzido por um garboso Agente da Autoridade. Ainda ouviu o cívico dizer ao mecânico qualquer coisa como “está aqui este carro, é para reparar o cabo da embraiagem, mas aquilo é só mesmo apertar a braçadeira, de resto está tudo em ordem” o que poderia ser traduzido literalmente porvê-lá-no-que-é-que-te-metes-olha-que-eu-percebo
-disto-e-não-te-atrevas-a-

inventar-avarias-onde-elas-não-existem
“.
A esposa do cidadão apresentou-se ao polícia, e disse ao que ia. O guardião retirou e estendeu-lhe as chaves do escritório do marido. Marido que só conseguiu mesmo fechar a boca de espanto quando viu a esposa a sair de um carro-patrulha, para lhe entregar as chaves…

“CADÁVER EM SALMOURA”

Há 180 anos…

um homicídio no Porto


 

Há dias, vasculhando velhos alfarrábios na Biblioteca Pública, deparei com um titulo que me chamou a atenção: «O Homem Salgado». Debrucei-me sobre ele: descrevia um crime descoberto em 1825, na cidade do Porto, e as subsequentes investigações para determinar a sua autoria.

Estava escrito numa grafia antiga, em estilo curioso, o que me levou a transcrever parte do artigo. Vejamos, pois, este delicioso pedaço de prosa:

«Na viella do Cysne (que vae da Cancetla Velha ter ao cimo da Rua do Laranjal, à esquina do Palácio Ferreírinha, no largo da Trindade) appareceu, no dia 13 de Março de 1825, um grande barril, fechado, exhalando muito mau cheiro. Duas meretrizes, das que já então costumavam habitar n’aquela viella, foram as primeiras que na manhã desse dia viram o tal barril, e foram dar parte ao cabo de policia mais próximo, o qual veio com ellas, e, destapando o barril, n’elle acharam um homem, vestido, morto, e mettido em sal, com signaes evidentes de morte violenta».

Era uma manhã de sol, como que a anunciar a Primavera que se ia aproximando. As primeiras pessoas começavam a passar, ainda sonolentas, fazendo a cidade do século passado despertar lentamente.

Na viela do Cisne, um cabo da policia olhava, sem perceber, o macabro conteúdo do barril. As duas meretrizes, horrorizadas, com os lenços tapando o nariz, não conseguiam desviar os olhos daquilo que, em vida, tinha sido um dos homens mais ricos da cidade do Porto: no entanto, naquele momento ainda o cadáver era de um desconhecido.

As autoridades foram avisadas. Pouco depois, comparecia no local um «juiz de crime que procedeu ao auto de corpo de delicto».

Tirou-se o cadáver do barril; estava vestido, envolto em sal, e em adiantado estado de putrefacção, de tal forma que estava irreconhecível. Entre o tampo do barril e a cabeça do cadáver havia uns trapos e, no meio destas, uma bolsa própria para dinheiro, «com capacidade para 200 moedas de prata e com a firme S & F».

No exame que se faz ao cadáver foram encontrados: uma caixa de rapé, uma argola com chaves e um lenço de assoar.

O estado de putrefacção em que se encontrava indicava que a morte devia ter ocorrido muito tempo atrás. Como se disse, o corpo estava completamente irreconhecível, e esse facto era agravado pela ausência de outros elementos ou documentos de Identificação; a única pista então existente, era a saca para moedas, com as iniciais S & F. Não obstante, as investigações prosseguiram.

Como é fácil de calcular, a cidade do Porto apresentava, no primeiro quartel do século vinte, características completamente diferentes das que hoie nos são dadas a observar. O velho burgo tripeiro era muito menor, e as suas ruas tortuosas. Algumas delas ainda chegaram aos nossos dias; basta darmos um passeio pelas ruas da Sé, percorrermos a freguesia da Vitória — onde o hábito de passar todos os dias nos leva a alhear-mo-nos do seu tipicismo — ou, se descermos até aos becos da Ribeira, poderemos fazer uma Ideia do que era a cidade do Porto em 1825. A sua população era em muito menor quantidade, e quase se poderia dizer que «toda a gente se conhecia». Daí que não tenha sido muito difícil concluir que o barril «apparecera em um armazém, da próxima rua do Laranjal, junto à fonte… propriedade (o armazém) de João António Gomes de Castro, morador na praça das Freiras de S. Bento, e que trazia de renda Agostinho Luiz Ignácio».

Este armazém, anteriormente e durante vários anos, eslava arrendado a um rico negociante do Porto, José António de Araújo e Silva, que ali tinha instalado um depósito de vinhos e aguardentes. Em 1824, o José Silva desocupou-o, passando o armazém a ser ocupado pelo Agostinho Inácio.

Quando tomou conta do armazém, o Agostinho já lá encontrou o barril; e a explicação que então foi dada pelo Silva foi a de que ele pertencia a um seu ex-empregado que, acusado de furto, tinha sido degredado, «— Assim continuou o Silva — como o meu ex–empregado foi degredado por dez anos, e como o barril já aí se encontra há bastante tempo, é melhor deitá-Io fora». E porquê? Porque, ainda segundo o Silva, o barril continha presuntos que, certamente, já estariam estragados.

Mas o Agostinho, certamente na esperança de que alguns dos presuntos ainda se pudessem aproveitar,decidiu-se a abrir o barri]; e se bem o pensou melhor o fez. Mas logo que, â primeira pancada, o tampo cedeu, logo se desenvolveu o fedor de tal modo pestilento que o Agostinho teve de fugir.

Em face do sucedido, o Agostinho logo mandou recado ao Silva, que se prontificou, imediatamente, a mandar retirar o barril. E â noite, um caixeiro do Silva, acompanhado por um outro Indivíduo a quem o caixeiro disse que o barril continha carne podre — e não estava a enganá-lo — retirou-o do armazém e foi colocá-lo… na «viella do Cysne».

As averiguações prosseguiam, com os cabos de policia fazendo sucessivas interrogatórios tentando, agora, identificar o cadáver. Tal como ainda hoje acontece, os investigadores começaram a defrontar-se com as mais diversas Informações de pessoas que ora garantiam que o corpo era de um sobrinho do Silva, ora afirmavam, com toda a certeza, que o cadáver era de um negociante pernambucano com quem o Silva se relacionara… Mas a hipótese que corria com mais Insistência e, digamos, com mais foro de veracidade, era a de que o morto era (tinha sido!) um cambista da cidade do Porto, a quem o Silva devia em segredo (?) e sem que dessa divida houvesse qualquer documento, elevada quantia em dinheiro. O cambista — José de Freitas Guimarães — tinha sido dado como desaparecido em 9 de Julho de 1822… e testemunhas afirmaram tê-lo visto entrar, no dia do desaparecimento, na residência do Silva. Além disso, outros pormenores ajudavam a sustentar esta hipótese: a roupa, a marca da saca para moedas (S & F — Salgado & Freitas)… e o facto de o Silva se ter ausentado para parte incerta logo que houve conhecimento do aparecimento do cadáver.

José de Freitas Guimarães era, como se disse, cambista. Tinha sociedade formada com Manuel Vaz Salgado (afinal, «salgado» foi o Freitas) que, naturalmente, foi chamado a depor.

Do seu depoimento consta que teria afirmado o seguinte: Seu sócio saíra de casa em 9 de Julho de 1822, com uma saca contendo dinheiro, e nunca mais fora visto.

No entanto, ou a troco de dinheiro ou porque não quisesse dar contas do espólio aos herdeiros do seu sócio — desaparecido não significa, necessariamente, morto — o Salgado acabou por afirmar ter recebido cartas de pessoas radicadas no Brasil, cartas em que se afirmava ter o Guimarães sido visto em Rio Grande do Sul. Mas a patifaria do Salgado vai mais longe: faz juntar aos autos cartas que «atestam» as suas palavras. Só que as «cartas do Brasil» (fls. 101 e 102 dos autos) nunca foram reconhecidas, isto é, nunca se soube quem as escreveu.

Fácil nos é, pois, concluir que a corrupção pelo dinheiro e os «golpes baixos» não são invenção recente. Aliás, a tramitação que se processou nos «bastidores da justiça» è disso prova, como adiante se verá.

Com efeito, o Silva, logo que o cadáver foi encontrado fugiu para Lisboa, onde se manteve escondido.

Mas não ficou quieto: largas somas de dinheiro começaram a ser, por ele, movimentadas, no sentido de comprar testemunhas que, indo ao processo devidamente instruídas, fizeram a justiça desviar-se e escolher como principal alvo da acusação… o ex-empregado que, degredado, não tinha, obviamente, hipóteses de se defender.

Desta feita, embora tendo cometido um crime a que, na altura, correspondia a punição com a pena capital, o Silva acaba por ser condenado como cúmplice, tendo sido sentenciado «a dez annos de degredo para Moçambique, 6000$000 reis para despezas da relação e custas»; mas, no «desempate» (cúmulo jurídico) ficou a «condemnação reduzida a 5 annos de degredo para Angola, um conto de reis para os familiares do morto, e 6000$000 reis para despezas da relação e custas». Foi preso, aguardando transporte para o degredo.

O Silva, porém, é que não se conformava; por outro lado, embora o Tribunal fosse — como ainda é — um órgão independente do aparelho de Estado, a verdade é que naquela época se adaptava às diversas «nuance»* políticas.

Vejamos:

O Silva, mesmo preso não parou de «negociar»; continuando a movimentar avultadas somas, conseguiu a liberdade sob caução. Pretendia, desta forma, embargar a sentença condenatórla. Mas a fiança acabou por ser anulada, e o réu foí novamente preso em 11 de Novembro de 1825, à ordem do barão de Rendufe, Intendente geral da Polícia. «Logo a 16, marchou para’a relação do Porto, acompanhado por um escrivão e uma escolta de cavallaria da guarda real da polícia de Lisboa, tudo è custa do réu».

Mas a política muda: D. João VI falece a 10 de Março de 1826; o barão de Rendufe é demitido; D. Isabel Maria assume a regência do reino… e os protectores do réu logram obter um novo «alvará de fiança».

Em 1834, após o termo da guerra civil, regressa; faz nova tentativa para anulação da sentença, apresentando-se perante o Tribunal como «uma víctima do liberalismo» e chamando a D. Miguel «monstro e usurpador».

E a verdade é que, não obstante as sentenças terem sido pronunciadas numa época em que D. Miguel se encontrava em Viena de Áustria, logo, sem qualquer interferência nos destinos de Portugal, a verdade, dizia, é que o Silva acaba por vencer! E os juizes lavram, para os autos, o seguinte «accordam»:

«(…).Portanto e o mais dos autos, annullam, na conformidade do § 4º do artigo 4º, do decreto de 19 de maio de 1832, todo o processado, e mandam que, pela forma em que está (porque é impossível fazer agora outro exacto) se instaure de novo o feito, para o que se remetterão os presentes autos, ao juiz de direito do districto de Cedofeita, na cidade do Porto. Lisboa, 22 de dezembro de 1835 — Visconde de Laborim —: Aguiar — Paiva Pereira-—fui presente, Felgueiras».

É evidente que o processo nunca mais foi instaurado; e o Silva acabou por morrer descansadamente, na sua cama…

«Assim terminou a história do homem salgado, que tanto e por tanto tempo deu que fallar no Porto, e tornou célebre a torta, insignificante e Immunda viella do Cysne».

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